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Com presença de Assange, vigilância e espionagem são temas na #ArenaNETmundial

24 de Abril de 2014, 17:58 , por Igor Natusch - 1Um comentário
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Com entrada por webconferência de Julian Assange, o penúltimo diálogo do #ArenaNETmundial, "Soberania digital e vigilância na era da Internet", mostrou que quando o assunto é privacidade de dados pessoais a comunidade da Internet não está disposta a falar manso. Já na abertura, Natália Viana, fundadora da Agência Pública de Jornalismo Investigativo e principal articulação de Assange e do Wikileaks com o Brasil, deu o tom da conversa. “Não falar de espionagem e vigilância é a negação do elefante branco na sala. E qualquer tentativa de debate sem falar do asilo a Snowden, sem falar da necessidade do Brasil de tomar posição sobre a negociação entre Equador e Reino Unido para que o Assange possa desfrutar de seu asilo, será fracassada”.

Sérgio Amadeu, professor da Universidade do ABC, aproveitou a deixa para alertar sobre o artigo 15 do Marco Civil, que passou intacto na sanção da Presidenta Dilma Rousseff, contrariando os pedidos de #Veta15Dilma da sociedade civil, ouvidos inclusive durante a #ArenaNETmundial. “Essa guarda de informação é diferente da guarda que já vemos acontecer nas redes sociais, porque agora ela se torna obrigatória. Quem não guarda, passa a guardar, aumentando o mercado de dados pessoais. O grande problema da espionagem é que ela é feita também através das corporações que nós utilizamos. São informações que ficam para além das finalidades econômicas, ela vão para as fronteiras políticas”.

Uma Lei de Privacidade, que proteja cidadãos e seus dados pessoais, foi apresentada como o próximo passo das regulamentações para garantir mais direitos aos cidadãos - e a Guerra cibernética foi mencionada de uma forma ou de outra por todos os debatedores. Sergio Amadeu, Jacob Appelbaum, do projeto Anonimato Tor, e Roy Singham, CEO da ThoughtWorks, foram enfáticos na necessidade de adotarmos criptografia, software livre e alternativas livres para garantir o controle sobre nossa própria presença online e não apenas esperar que as Leis e o Estado cuidem disso. “A fronteira da guerra cibernética passa pelo nosso computador. Aqueles que usam o Windows deviam exorcizar sua máquina. Quem mais invade nossas máquinas não são hackers, nem crakers, são as grandes corporações”, lançou Amadeu, recebendo uma sequência de palmas do público.

As consequências da vigilância e espionagem, comprovadas e denunciadas por Snowden a partir da NSA, foram narradas por Appelbaum a partir de uma experiência em primeira pessoa. O hackativista norte-americano vive hoje na Alemanha devido a processos por suas ações contra vigilantismo a serviço de grupos como Greenpeace, Ruckus Society e por seu apoio à ação de Edward Snowden. Dados da sua conta no twitter foram entregues ao governo norte-americano por meio de ordem judicial e foi detido mais de uma dezena de vezes, tendo seus celulares e laptops apreendidos, entre outras situações.

“Essa vigilância massificada me preocupa, pois ela ajuda a incorporar na sociedade uma cultura do medo.  O que eu quero trazer para vocês é como é viver sob constante vigilância. Medo constante, porque qualquer coisa que fizer vai impactar a sua vida. E para mim, não pode haver maior desrespeito do que calar a boca de pessoas como Julian Assange ou Edward Snowden depois de tudo o que eles revelaram. Espero que vocês digam que se importam com a verdade, especialmente quando os opressores estão aqui nos assistindo”, posicionou Appelbaum.

Na sequência, Roy Singham apresentou sua admiração pela presidenta Dilma Roussef, tanto pela aprovação do Marco Civil e pela fala no NETmundial. “Gostaria de pedir palmas à presidenta, que na fala de ontem não foi nem um pouco covarde em relação à temas como privacidade e neutralidade. E ainda entrou numa questão importante acerca da diversidade. Hoje 60% do conteúdo da Internet está em inglês e 15% do mundo fala lingua inglesa.”

Para Roy também ficou a responsabilidade de apresentar uma das atrações que gerou mais furor entre o público: Julian Assange. “É com grande prazer que apresento o homem que foi arquiteto dessa era de informação” foi a última frase do executivo antes de uma sequência de aplausos, que dominaram o auditório junto com a aparição da imagem de Assange com sua camiseta do Brasil no telão.

O barulho foi substituído por um silêncio atencioso. O principal nome do Wikileaks começou observando seus ouvintes. “Uma população barulhenta, divertida e apreciativa. Isso é muito legal”. Sobre o Marco Civil, pediu um tratamento com a seriedade e respeito que merece. “Apesar das concessões, é uma Lei importante, sobretudo para um país do tamanho do Brasil que está se posicionando diante do mundo”, avaliou.

No intervalo permitido por uma queda da conexão de Assange, Singham e Appelbaum fizeram críticas duras a todo o sistema político mundial. Jacob Appelbaum acentuou que “ocupar a Internet é ocupar a sociedade. Nela acontecem processos informais. E o informal é muito importante. É por isso que recursos enormes estão dedicados para oprimir esse espaço. Os Estado Unidos e Reino Unido são avançados colonialistas da internet. Reconhecem a ameaça do que está sendo feito aqui no Brasil e respondem com ameaça à criação de ambientes alternativos e livres”.

O regresso de Assange no diálogo retomou a pauta do Marco Civil. “Quando uma legislação é aprovada imediatamente existe a possibilidade dela ser corrompida. No caso do Brasil, a mídia de massa, as grandes corporações e pressões do governo podem corromper o Marco Civil. A única forma de combater isso é por meio de nosso trabalho corajoso e solidário”. 

“Mesmo se obtivermos tudo o que quisermos, a luta terá que ser constante. Não vamos parar de lutar, vamos compreender que nesse momento existe um novo padrão se estabelecendo em rede e uma nova formação de cultura, com novos princípios e valores. Precisamos captar o momento. Se não fizermos, outros farão”. A fala final de Assange foi aplaudida pelo público, que em grande parte utilizava máscaras reproduzindo o rosto de Edward Snowden.

Texto: Lívia Ascava
Fotos: Eduardo Aigner 


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Ciência, Informação e Comunicação
Tags deste artigo: debatedores debates arena net mundial

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